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Projeto americano de IA no Paraguai vai usar energia de Itaipu - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

A usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, pertence aos dois países, e cada um tem direito à metade da energia que ela gera. Como o consumo paraguaio sempre foi menor do que a parcela a que o país tem direito, a sobra foi tradicionalmente comprada pelo lado brasileiro. Nos últimos dias, segundo o jornal O Globo, cerca de 7% da eletricidade consumida no Brasil veio de Itaipu, e o excedente paraguaio representa menos de um quarto desse montante.

É essa sobra que voltou ao centro da discussão. Na quarta-feira (21), o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou uma parceria entre a americana Crusoe e a paraguaia Araico para construir no Paraguai uma estrutura de computação voltada à inteligência artificial, abastecida pela energia de Itaipu. O comunicado americano não menciona o Brasil.

Como Brasil e Paraguai dividem a energia da usina

A divisão é estabelecida pelo Tratado de Itaipu, assinado em 1973, que garante a cada país 50% da energia produzida. O que um dos dois não utiliza fica disponível para ser comprado pelo outro. Historicamente, o Paraguai consumia uma pequena parte do que lhe cabia e destinava o restante ao mercado brasileiro. Atualmente, segundo o g1, o país usa cerca de 74% da sua metade, e os 26% restantes vão para o Brasil.

As condições financeiras e comerciais dessa venda estão no Anexo C do tratado, o documento que define como são calculados os custos da eletricidade e a compensação paga pela energia que um país deixa de usar e repassa ao outro. Esse anexo está em revisão pelos dois governos. Segundo apurou o Valor Econômico, as discussões estão paralisadas há alguns meses.

O que o acordo prevê, e quando sai do papel

A Crusoe, empresa americana que constrói infraestrutura para inteligência artificial, e a Araico, desenvolvedora paraguaia de projetos de energia e infraestrutura, pretendem erguer a instalação ao lado da subestação de Itaipu, no território paraguaio. A Araico ficará responsável pelo desenvolvimento local e pela infraestrutura do terreno; a Crusoe vai administrar e operar os equipamentos de computação e oferecer os serviços de sua plataforma de nuvem.

A previsão das empresas é colocar uma primeira etapa em operação em meados de 2027, com 106 megawatts de capacidade de tecnologia da informação, podendo chegar a aproximadamente 280 megawatts no longo prazo. Segundo o Departamento de Estado, a instalação atenderá clientes de computação em nuvem nos Estados Unidos e na América Latina, e o projeto tem potencial para se tornar um dos maiores investimentos privados da história paraguaia. O valor não foi informado, nem o volume de energia contratado.

Para o presidente do Paraguai, Santiago Peña, citado no comunicado da Crusoe, a parceria traz empregos, investimento e tecnologia e é uma oportunidade de o país se estabelecer como líder regional em infraestrutura de inteligência artificial.

O Brasil não participou das negociações. A Itaipu Binacional informou ao g1 que a visita da delegação americana foi organizada pelo lado paraguaio, sem participação da diretoria brasileira ou do governo brasileiro, e que receber autoridades estrangeiras é prerrogativa de cada sócio, sem necessidade de autorização prévia. A usina afirmou ainda que não interfere na demanda nacional de cada país e que projetos dessa natureza não são de sua competência.

Por que especialistas falam em menos energia para o lado brasileiro

Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção, disse ao g1 que a redução do excedente repassado ao Brasil já está em curso e pode acelerar com novos consumidores. "O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante", afirmou. Segundo ele, a demanda paraguaia se intensificou a partir de 2021 e 2022, puxada sobretudo pela instalação de empresas que consomem muita eletricidade, como as de mineração de criptomoedas.

Tomaz Espósito, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados, avalia que um novo grande consumidor torna as negociações do Anexo C mais complexas e, no curto prazo, abre a possibilidade de redução da oferta ao mercado brasileiro. Nenhum dos dois aponta risco de desabastecimento: Oxilia afirma que o sistema elétrico brasileiro é grande e diversificado o bastante para que o impacto seja mínimo, enquanto Espósito pondera que uma reserva importante para o Centro-Sul do país tende a diminuir ao longo do tempo.

Edmar Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, disse ao Globo que um projeto com demanda inicial de 106 megawatts não é de grande porte. Para efeito de comparação, ele cita o data center que será instalado pela Elea no Rio AI City, no Rio de Janeiro, com 1,5 gigawatt de capacidade já de largada. Na avaliação dele, uma redução no volume vendido ao Brasil não afeta o mercado brasileiro, que não tem problema de capacidade de geração. Almeida lembra ainda que o plano paraguaio sempre foi consumir internamente sua parte da usina, atraindo indústrias.

Até agora não há estimativa oficial de quanto o empreendimento poderá reduzir a energia disponibilizada ao Brasil, nem confirmação de efeitos sobre a conta de luz brasileira.

O preço da energia e o que diz o lado brasileiro

O preço acordado não foi divulgado oficialmente. Segundo apurou o jornal paraguaio ABC Color junto à Administração Nacional de Eletricidade do Paraguai, o valor inicial será de US$ 48 por megawatt, com reajuste anual de 2,5% conforme a inflação americana e revisão da tarifa de acordo com o custo médio de geração aproximadamente a cada dois anos.

Almeida pondera que avaliar o negócio depende justamente do preço: o valor pago na exportação, afirma, é melhor do que o praticado internamente. Integrantes do governo brasileiro, em conversas de bastidor relatadas pelo Globo, minimizam o acordo e lembram que o Paraguai tem direito a usar 50% da energia da usina.

Vale lembrar o que já estava combinado entre os dois países. Em 2024, Brasil e Paraguai fecharam um entendimento sobre as tarifas da usina por três anos, com o Brasil aceitando um reajuste maior do que defendia em troca de contrapartidas, entre elas o avanço da revisão do Anexo C. Esse mesmo entendimento previa a possibilidade de o excedente paraguaio ser comercializado no mercado livre brasileiro a partir de 2027.

O acordo faz parte de um pacote maior entre EUA e Paraguai

O anúncio ocorreu durante a visita do vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, ao Paraguai, entre 19 e 21 de outubro, que incluiu uma passagem pela usina. Na mesma agenda, a americana Uranium Energy Corp anunciou investimento de US$ 12 milhões em uma concessão de urânio no país; os dois governos assinaram um acordo de assistência para interceptação aérea contra voos suspeitos de transportar drogas; Washington anunciou US$ 5,5 milhões para ações contra o financiamento do terrorismo e segurança de fronteiras e US$ 6,25 milhões contra o crime organizado transnacional; e os países iniciaram negociações para um acordo de cooperação no uso pacífico da energia nuclear. Os EUA também anunciaram a criação, em Assunção, de um escritório antidrogas que funcionará como centro de coordenação regional. Na sexta-feira (23), o Paraguai se tornou o 26º signatário da Declaração Pax Silica, iniciativa americana de cooperação em cadeias de suprimentos de inteligência artificial.

Para Leonardo Paz, professor de Relações Internacionais do Ibmec e pesquisador da Fundação Getulio Vargas, ouvido pelo Globo, o conjunto cobre as prioridades que o governo americano vem colocando para a região, de energia e minerais a acordos militares e combate ao narcotráfico, dentro de uma estratégia de ampliar sua influência na América Latina.

O que fazer com essa informação

Para quem consome energia no Brasil, nada muda agora: os especialistas ouvidos pelas reportagens não apontam risco de desabastecimento nem efeito confirmado na conta de luz, e a primeira etapa do projeto só deve operar em 2027. O que vale acompanhar são três frentes concretas.

A primeira é a revisão do Anexo C. É nela que se definem as regras de preço e de comercialização do excedente paraguaio, e ela está parada há meses, segundo o Valor. Se e quando voltar à mesa, é o indicador mais direto de como ficará a energia que chega ao Brasil.

A segunda são os balanços de Itaipu. Hoje o Paraguai usa cerca de 74% da sua metade; esse percentual vem subindo desde 2021 e 2022, e é o número que mostra, sem depender de projeção, quanto sobra para o mercado brasileiro.

A terceira é o próprio projeto. Entre o anúncio e a operação há um caminho que ainda não foi percorrido: confirmar a entrada em funcionamento prevista para meados de 2027, o valor do investimento, que não foi divulgado, e se a capacidade chega de fato aos 280 megawatts anunciados como horizonte de longo prazo.

Quando você lê que um acordo anunciado em outro país pode afetar a energia do Brasil, o que você costuma checar antes de tirar uma conclusão: o que foi assinado, o que ainda depende de negociação, ou o que já aparece nos números?

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